Lifestyle

30 Ago 2020

Boaventura Fernandes, o cabo-verdiano na “terra longe”!

 
 


Chego sempre sem avisar. Um abraço apertado ao meu querido pai e ele, todo contente, pergunta-me: "Filha, de novo?". E eu: "Papá não é época de milho-verde?". Oiço uma sentida gargalhada e vejo os olhos dele que hoje brilham. É o homem da terra, mas sobretudo o homem cabo-verdiano. E é isto, o nosso destino. A gente sai de Cabo-Verde, mas Cabo-Verde não sai da gente.

A conversa vai e vem, mas a minha cabeça já só imagina o “Cabo-Verde em miniatura” que existe dentro da horta do meu pai. Nisto, ele traz-me a realidade: "Vieste por nós ou pelo milho?". Enquanto me oferece uma chávena de café preto e bem quente. Um gole e uma risada, respondo: "Papá, vim pelo milho, e aproveito para ver-vos também". E a gargalhada recomeça. Sim, já começo a sentir os ares da minha morabeza. Este homem da terra sabe como ninguém trazer o nosso “Cabo-Verde" para Portugal e para o coração da sua filha.

É o puro êxtase! É o calor da brasa no meu pescoço e um cheiro do perfume da minha terra querida: É o milho assado. Há algum cheiro mais atraente neste mundo?

Quase 1500 quilómetros (1.454,52 km) é a distância que me separava deste gosto delicioso de Cabo-Verde que agora sinto na minha boca através de uma das principais bases da nossa gastronomia — o milho. Algures perto de Sintra (Portugal), tenho os olhos posto nele (meu pai) e sinto-me em casa! Lembro-me com clareza do dia em que chegámos a Portugal. Enquanto os meus olhos brilhavam com a ideia de um “mundo novo”, o meu pai aparentava ter um olhar distante. Era o da maturidade. O tempo foi passando e eu começava a ver-me nos seus olhos. Cabo Verde fica-nos com um pedaço quando partimos. Uma ferida! Uma ferida que hoje parece ter sarado para o meu pai. Agora, com os pés descalços na terra molhada, a camisa colada ao corpo transpirado, com a enxada na mão e um sorriso que ilumina o mundo. Daqui já não sai. Tornou-se refém. Sim, refém da terra, para que a saudade deixe de doer. Se existe Cabo-Verde em Portugal, é aqui.

O meu pai encontrou o refúgio na sua horta e hoje encontrei o meu também nos olhos dele. Mas, amanhã é dia de partida. Um outro abraço apertado, águas que nascem dos olhos de quem fica, mas sobretudo dos da filha querida que parte para Paris (França), a cidade dos “sonhos”. Afinal é este o nosso destino, "o querer ficar e ter de partir". No entanto, podemos percorrer o mundo, se necessário, mas sempre voltamos onde sentimos o “Cabo-Verde” perto de nós. E é isto, o ser cabo-verdiano e viver na terra longe!





Crônica de Fátima Fernandes
Crioula, residente em Paris, França @fatima_fernandes_8 no Instagram

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