Lifestyle

17 Set 2020

Júlio José Dias, um dos primeiros caboverdianos a estudar na Sorbonne

 
Busto de Júlio José Dias, no Centro Histórico de Ribeira Brava
 
Sorbonne University, Paris, França [foto: Zlatko Tesic]
 
"Terreiro", no Centro Histórico de Ribeira Brava


"À bout de soufle" (sem fôlego): Um emblemático filme francês que agrupa a era dos anos 60, considerado como uma "nova vaga" para o cinema francês. O que não imaginava é que esse filme poderia, também, fazer parte e, quiçá, mudar o percurso da minha vida.

Já que estamos a falar de história, conto-vos um "pedacinho" da minha. Estávamos em 2016 quando vi, por acaso, esta narrativa cinematográfica francesa. Trata-se da história de Patrícia, uma "new-yorkaise" que partiu para Paris com o objetivo de estudar na Sorbonne. Para chegar ao seu fim, esta americana vendia o jornal "New York HeraldTribune" em pleno "Champs d´Elysées", uma prestigiada avenida de Paris (França). No fundo, este filme, do tempo do cinema a preto e branco, retrata uma história de amor e tragédia. Mas, o relevante nisto tudo é que foi desta forma que ouvi falar, pela primeira, vez da Sorbonne, uma das universidades mais renomadas de França e do mundo. Na altura, vivia eu em Portugal. Logo após o final do filme, comecei a fazer uma enxurrada de pesquisas no Google, com o intuito de saber como chegar à Sorbonne. E assim foi!

A pergunta que grita: Quem toma uma decisão tão importante baseando-se apenas na história de um filme? Como diriam os franceses, só uma "rêveuse", mas eu diria, sobretudo uma cabo-verdiana. Mas isso é apenas umas das histórias pitorescas da minha vida. Mas querem que vos diga? O caboverdiano entrega-se de corpo e alma a todas as aventuras da vida. É o caso de Júlio José Dias (1805-1873). Cronologicamente, o primeiro médico cabo-verdiano, mas também o indivíduo que, teoricamente, introduziu a Sorbonne na história dos estudantes caboverdianos. Estávamos na primeira metade do século XIX quando o seu pai o enviou para França para estudar medicina na Sorbonne, em Paris. Dias era um rico proprietário, pelo que, de regresso à terra natal, passou a exercer de forma gratuita a profissão de médico, em São Nicolau. Entre outros, esse feito mereceu-lhe o reconhecimento do povo, obtendo assim um grande prestígio.

Já vos dizia, o caboverdiano é gente a quem os sonhos têm asas. Gente que sonha grande, mas também gente "viciada" no que é da gente – "nos terra nos cretcheu". Ainda assim, gente que, de lágrimas nos olhos e com um adeus magoado, deixa a terra natal em busca dos sonhos e conhecimentos para engrandecer o seu Cabo Verde. Gente de sangue quente e de coração sonhador. Gente que vai onde os sonhos o leva. Gente sem medo de "labuta". Mas os sonhos também magoam, não é mesmo? O caboverdiano sai para um destino longínquo já a pensar no seu regresso. E na hora da dor de "sodadi", a gente chora ao som da música de Beto Dias: "Até um dia se Deus quiser".

Como tantos outros, Júlio José Dias honrou o regresso e engrandeceu a sua terra natal! Conquistou na Sorbonne uma das maiores riquezas que podemos ter - o conhecimento. E cumpriu-o por Cabo Verde! É o nosso grito. O grito de alma do cabo-verdiano. Sair por Cabo Verde e regressar por Cabo Verde!

O reconhecimento do povo de São Nicolau valeu ao Júlio José Dias um busto inaugurado em 1884, (pago por subscrição pública), no terreiro do Centro Histórico de Ribeira Brava. Local este, que já tenho na minha "lista de desejos" de lugares a visitar, em Cabo Verde.


Crônica de Fátima Fernandes
Crioula, residente em Paris, França @fatima_fernandes_8 no Instagram

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