Na nossa caminhada, daquelas sem roteiro pela ilha de Santiago, parámos quase por acaso na esplanada do posto de combustível da Shell, ali mesmo, ao lado do Aeroporto Internacional Nelson Mandela, na cidade da Praia. Foi uma dessas descobertas que a pressa do dia a dia costuma esconder. À primeira vista, nada anunciava o que estava por vir. Mas bastou sentarmo-nos para perceber que aquele não era um lugar qualquer.
A esplanada oferece uma vista direta para a pista do aeroporto. Enquanto aguardávamos pela cachupa refogada, daquelas que já chegam com fama, apontada por muitos como uma das melhores da capital, deixámo-nos ficar a observar o movimento dos aviões. O nosso amor pela cachupa é desde nascença e declarado, mas foi mesmo o nosso entusiasmo em fotografar aviões e o fascínio pelo levantar e pousar das aeronaves que nos fez parar ali, sem pressa.
O aeroporto tem uma dinâmica própria. Um vaivém constante de pessoas, carros, passos acelerados e olhares inquietos. Dá quase para adivinhar pensamentos: "estou atrasado". É ali que se cruzam partidas e regressos, despedidas silenciosas e abraços apressados. Ponto de partida para quem vai longe, ponto de chegada para quem regressa a casa, lugar de passagem para tantos outros.
Ninguém fica indiferente ao deslizar dos aviões na pista. Há algo de hipnotizante naquele ritual. Sentado na esplanada, saboreando a cachupa refogada com dois ovos estrelados, acompanhada de um galão, confirmámos: a fama faz jus ao prato. Muito boa. Entrou, sem discussão, para a nossa lista pessoal das cinco melhores cachupas refogadas da cidade da Praia.
Era fim de manhã, em pleno período das Festas de Ano Novo. O aeroporto fervilhava. Emigrantes regressavam para matar saudades, turistas estrangeiros chegavam em busca do sol que Cabo Verde oferece 365 dias por ano. Os ATR que asseguram os voos interilhas cruzavam-se com aeronaves regionais e internacionais: Cabo Verde Airlines, TAP, Azores Airlines, EasyJet, Air Senegal, Transavia. Cada avião que levantava voo parecia levar consigo sonhos de emigração, regressos à diáspora e aquele clássico pedido que atravessa oceanos: "mantenha a minha madrinha".
Quantas vezes passámos por este espaço sem imaginar o que ali se escondia? Qualidade gastronómica, um ambiente surpreendentemente agradável e a simpatia genuína das empregadas de mesa. A palavra morabeza está estampada num grande cartaz, mas ali ela ultrapassa o tamanho do espaço. Vive-se. Sente-se. Até o Cabo Verde democrático e em paz se revela ali, de forma simples e descontraída.
Comemos devagar. Talvez a cachupa mais demorada de sempre. O pretexto era claro: prolongar o prazer de ver os aviões. Na mesa ao lado, o Presidente da República e a Primeira-Dama partilhavam o mesmo espaço, com naturalidade, como só acontece em lugares onde a proximidade ainda é possível.
Mas o que mais me fascina naquela esplanada é a vista. Paralela à pista de aviação, ergue-se o Monte Facho, lugar onde Charles Darwin, em 1832, durante a sua primeira grande viagem pelos trópicos, recolheu evidências fundamentais para as suas descobertas sobre geologia e evolução. Do lado norte, o olhar estende-se até à ilha do Maio, numa linha serena entre o céu e o mar.
Para o final da tarde, o dia prometia um pôr do sol memorável. Motivo suficiente para mais uma caminhada leve, outra vez para aquelas bandas. Do aeroporto da Praia, o pôr do sol é um espetáculo à parte: o laranja desce lentamente atrás da cidade, enquanto a silhueta de um avião recortada na pista se transforma num verdadeiro deleite para os olhos.
Ali, percebemos que alguns lugares só se revelam a quem decide parar e observar atentamente.
Décio Barros




