Havia um certo simbolismo no arranque da 10ª edição do Festival Grito Rock Praia. Na Praça Luís de Camões, o mesmo espaço que, daqui a uma semana, voltará a receber muita música com o Atlantic Music Expo e o Kriol Jazz Festival, o rock reclamou o seu espaço, numa noite que terminou quase em sobrecarga.
Os Primitive abriram caminho, como quem conhece bem a casa. Formados em 2003 na cidade da Praia, subiram ao palco com a autoridade de quem ajudou a moldar o próprio festival. A sua fusão de rock progressivo, hip-hop, reggae e metal, temperada com referências cabo-verdianas, voltou a afirmar-se como assinatura única. O público, fiel e conhecedor, respondeu à altura, cantou, devolveu versos, acompanhou Bruce e César Freitas como se a noite fosse também sua.
Antes disso, um pequeno sobressalto: a ausência da Tomy Hegel Band, por motivos de força maior, obrigou a reajustes. Beliscou o alinhamento, mas não a essência. O Grito Rock é mais do que um cartaz, é encontro, é movimento.
E movimento foi o que não faltou quando os Freak, de São Vicente, regressaram ao palco 13 anos depois. A banda, nascida em 1995 “a brincar”, como recordou o guitarrista e vocalista Mário Coronel, trouxe consigo a memória e a energia de outros tempos. Entre reencontros e novas cumplicidades, Mário Coronel, guitarrista e vocalista, agora residente na ilha da Boa Vista, juntou-se ao guitarrista Valter Rocha, também membro fundador da banda, e ao baterista Bruno Lima, que integrou o grupo numa fase posterior. A completar o quarteto, o virtuoso guitarrista Vamar Martins, profundo conhecedor da banda, mas que sobe ao palco com os Freak pela primeira vez. Vamar voltou a protagonizar uma atuação monumental, à semelhança do que já havia feito na edição de 2025 do Grito Rock.

Freak, da ilha de São Vicente
Pelo meio, reafirmou-se também a dimensão consciente do festival. O Grito Rock Praia continua a ser música com causa, e nesta edição vestiu a campanha “Um por Todos e Todos por Zero”, alinhada com o movimento #MundoSemPlástico.
Vindos de longe, os Torp, das Ilhas Åland, uma região autónoma da Finlândia, trouxeram o peso do thrash metal old school. Riffs rápidos, som cru, intensidade sem filtros. O vocalista desceu ao público, dissolvendo a fronteira entre palco e plateia, e por momentos a Praça tornou-se uma só massa em ebulição.
Mas a noite guardava ainda o seu clímax. As Black Windows, banda portuguesa 100% feminina, fecharam o alinhamento com uma presença firme, densa e magnética. Num mês que em Cabo Verde também se veste de homenagem às mulheres, o simbolismo não passou despercebido. O metal pesado e melancólico ganhou corpo num espetáculo eletrizante, talvez até demais.
"Kuza Bruto" [Coisa da pesada, tradução livre de crioulo cabo-verdiano para português] foi uma das expressões mais repetidas entre músicos e bastidores ao longo do festival, acabou por materializar-se de forma inesperada. O bordão talvez nascida nos convívios que antecederam a noite do festival, e reforçada por estar estampada numa das t-shirts promocionais desta edição.
As Black Windows, de Portugal, levaram o espírito do “Kuza Bruto” à letra, empurrando a energia do Centro Histórico da Praia ao limite. Coincidência ou não, a intensidade foi tal que a eletricidade acabou por ceder, encurtando uma atuação magnífica que prometia ir ainda mais longe. Um apagão que, paradoxalmente, confirmou a força do momento.
Ainda assim, ninguém saiu defraudado. Pelo contrário: o público despediu-se com sorrisos, como quem sabe que assistiu a algo genuíno.

Black Windows, de Portugal
Há uma palavra muitas vezes repetida nos últimos anos em Cabo Verde - resiliência. E ela assenta bem ao Grito Rock Praia. Um festival gratuito, construído entre dificuldades, que chega à 10ª edição com vitalidade intacta, pelo menos à luz do que se vê em palco.
O seu público é, em grande parte, o de sempre, os amantes do rock, mas renova-se, ano após ano, com jovens curiosos por outras sonoridades. E talvez seja essa mistura que mantém o festival vivo.
No fim, como é hábito, a organização fala da “melhor edição de sempre”. Desta vez, não soa a cliché. Há qualquer coisa que sustenta a afirmação, na entrega das bandas, na resposta do público, na energia que, literalmente, fez faísca.
E, numa edição redonda, a homenagem não podia ser mais justa: o próprio Festival Grito Rock Praia, já firmado como um dos momentos incontornáveis da agenda cultural da capital.
DB





