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    Quando o funaná ganhou voz: Zeca di Nha Reinalda celebra 50 anos de carreira nesta sexta-feira

    25 de dezembro de 2025

    Há vozes que não pertencem apenas à música. Pertencem ao tempo, à memória coletiva e à própria história de um país. Zeca di Nha Reinalda é uma dessas vozes. Considerado, de forma unânime, o Rei do Funaná, celebra 50 anos de carreira, meio século a cantar Cabo Verde, os seus ritmos, as suas lutas e as suas alegrias.


    Emanuel Dias Fernandes, artisticamente conhecido como Zeca di Nha Reinalda, uma das vozes mais emblemáticas da música cabo-verdiana, celebra 50 anos de carreira com um grande concerto agendado para esta sexta-feira, 26 de dezembro, às 20h00, na Assembleia Nacional, na cidade da Praia. O espetáculo promete uma noite de elevada qualidade musical, sob direção musical de Kim Alves. Banda composta por: Kim Alves (teclado), Kaku Alves (guitarra), Yuri (guitarra), Adão Brito (baixo), Jorge Pimpas (bateria), Mateo (sax), Carlos Ferro (percursão) e Vanusa & Ineida (back vocal).

     

    O simbolismo é inevitável. Tal como o país, Zeca começou a caminhar em 1975, ano da Independência. Enquanto Cabo Verde se reinventava como nação, ele iniciava o seu percurso artístico, primeiro no Voz D’África, depois no Opus 7, que experimentava então sonoridades do funaná, num período de grande efervescência cultural. Assumindo já o papel de vocalista formando dupla com o irmão Zezé di Nha Reinalda, grupo do Bairro Craveiro Lopes, onde ele nasceu a 26 de março de 1956. Ali, neste bairro com forte ativismo cultural, desportivo e politico, fervilhava uma ideia de liberdade coletiva que ajudou a moldar gerações, e moldou também a sua voz. Não é por acaso que dali saiu uma voz que nunca foi neutra, nunca foi apenas entretenimento.

     

    Em 1978, Zeca e outros três membros do Opus 7 foram convidados pelo guitarrista e compositor Katchás a integrar os Bulimundo, grupo que viria a elevar o funaná a um novo patamar e a fixá-lo como marca identitária da música moderna cabo-verdiana. Mais urbano, mais elétrico, mais afirmativo. Um funaná que deixou de pedir licença e passou a ocupar o centro do palco. Desde então, a voz de Zeca tornou-se assinatura. Uma sonoridade potente, crua e inconfundível, que ajudou a definir o funaná moderno e atravessou décadas.

     

    Ao longo da carreira, Zeca di Nha Reinalda gravou 17 discos: quatro com os Bulimundo, seis com o Finaçon e sete a solo. O trabalho mais recente, lançado no início deste ano, celebra precisamente os 50 anos de carreira, reunindo 10 temas que percorrem ritmos como o funaná, batuku e tabanka. Aos 69 anos, o artista sente já o peso da idade e de uma vida intensamente dedicada à música.


    Em 2013, foi distinguido com o Prémio Carreira nos Cabo Verde Music Awards (CVMA), reconhecimento do seu legado artístico. Em 2025, voltou a subir ao palco dos CVMA para receber a mesma distinção, desta vez enquanto integrante dos Bulimundo, grupo que renasceu em 2016, com o regresso de Zeca à banda. Zeca di Nha Reinalda passou, com sucesso, pelos Bulimundo entre 1978 e 1984. Apesar das limitações físicas e dificuldades de locomoção, o músico pediu o microfone e fez ouvir a sua voz potente e inconfundível, uma sonoridade que moldou o funaná e marcou gerações.


    Inspirado por James Brown, mas profundamente enraizado em Cabo Verde, Zeca di Nha Reinalda construiu uma ponte entre África, diáspora e identidade local. O concerto desta sexta-feira não é apenas um espetáculo. É um encontro com a história viva da música cabo-verdiana. Um agradecimento coletivo a quem ajudou a dar som à nossa liberdade.

     

     

     

    Décio Barros