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    Skato: a música que vive fora dos holofotes, mas dentro da alma de Santiago

    15 de fevereiro de 2026

    Conhecido nas tocatinas e na animação de festas por toda a ilha de Santiago, Skato é uma figura muito acarinhada no meio musical de São Domingos. Tornou-se mais reconhecido junto do grande público em 2001, ao conquistar o terceiro lugar no concurso musical Todo Mundo Canta, no histórico Parque 5 de Julho, na cidade da Praia.


    De trato simples, discurso direto e sorriso sempre presente, Skato é daquelas pessoas cuja genuinidade transborda para a música, e é precisamente essa autenticidade que cativa quem o escuta.


    Num tempo em que a popularidade dos músicos é, muitas vezes, medida pelo número de lançamentos, visualizações nas plataformas digitais ou digressões. A trajetória de Skato mostra que a cultura vai muito além desses indicadores. Existe uma cultura viva e profundamente enraizada nas comunidades. É nesse contexto que o encontramos, a preparar-se para atuar no espaço Rubera, na localidade de Várzea de Igreja, no concelho de São Domingos, um espaço acolhedor que, aos fins de semana, aposta na música tradicional e na promoção de músicos desta região fértil em criatividade.


    Escrevemos este artigo no dia 15 de fevereiro de 2026, simbolicamente, data em que se assinala o centenário do nascimento de uma das maiores figuras da cultura de São Domingos, António Vaz Cabral, conhecido por Ntoni Denti d’Oro (1926-2018).


    Skato recorda com carinho o convite que recebeu do grande Fulgêncio Tavares, conhecido por Ano Nobo, para participar no concurso de vozes que viria a marcar a sua vida. "Vai acontecer um concurso de cantores. Quero enviar você e o meu filho Raúl para representarem o concelho de São Domingos", disse-lhe, na altura.


    Sempre entre sorrisos, conta, com detalhe e memória quase fotográfica, todos os momentos das suas vivências. Sobre a sua participação no Todo Mundo Canta, recorda, com emoção, os instantes que antecediam cada atuação. "A casa estava sempre cheia. Quando o apresentador dizia: 'vamos apanhar um hiace e ir até São Domingos buscar o Skato', eu, ainda no camarim, ouvia um grande barulho do público. Aquilo dava-me uma motivação enorme para cantar e dançar com toda a confiança. Saía do camarim acompanhado por duas moças até ao palco, enquanto o público gritava o meu nome. Foi um grande momento", relata.

     

    O músico lembra ainda que o concurso começou com cerca de 60 concorrentes e foi avançando por eliminatórias, num formato semelhante ao da "Liga dos Campeões", até restarem apenas seis finalistas. Na sua prestação, interpretou três temas, sendo uma morna obrigatório.


    Cantou a coladeira "Farto Caldeirão Emborcado", de Fulgêncio Tavares, a morna "José", de Zé di Piga, popularizado na voz de Zeca di Nha Reinalda, com grupo Bulimundo, e, para encerrar, apresentou o funaná da sua autoria, "Catorzinha".


    "São Domingos ficou bem representado. O Raúl acabou por vencer a edição de 2001 de Todo Mundo Canta e eu terminei na terceira posição", sublinha.


    Atualmente, integra a Banda Djunta Mon, criada a 17 de agosto de 1997 (mais uma vez lembra com precisão), com atuação regular em tocatinas, casamentos e eventos um pouco por toda a ilha de Santiago.


    Em 2025, participou no tema "Nu ka des Mundu", do artista Tikai, disponível no YouTube.


    Entre projetos, Skato revela que pretende lançar, em breve, um LP e, ainda este ano, editar três singles. Diz, com fé: "tudo está nas mãos do Governador do Mundo, o Senhor Deus".


    Pai de quatro filhos, "dois casais de pombas, dois machos e duas fêmeas", como brinca, Skato, de nome próprio Vitorino Tavares Pereira, nasceu em São Tomé e Príncipe, no seio de uma família numerosa de doze irmãos, durante o período dos contratados.

     

    Em 1974, regressou a Cabo Verde com a mãe e oito irmãos, enquanto o pai e os restantes seguiram para Portugal. Chegou ao país com dez anos e a terceira classe feita. "Digo sempre, é mi kel badio ki nasci na Santomé em 74, um ano depois entramos a independencia, 16 depois tivemos democracia, por isso aconselho aos cabo-verdianos a respeitar três datas importantes, 13 e 20 de janeiro e 5 de julho".


    A alcunha "Skato" surgiu de forma curiosa, quando trabalhava numa padaria e teve uma queda ao descer de uma carrinha de distribuição de pão, da marca "Skatoline". Um conhecido passou a chamá-lo "Skaton". A história espalhou-se, e o nome ficou.


    Para além da música, teve também uma ligação ao desporto. Jogou futebol nos juniores do Belenenses de São Domingos e, mais tarde, nos seniores dos Garridos. Atuava como ponta-de-lança e compara, com humor, o seu estilo de jogo ao de Didier Drogba. Em jogos inter-zonas chegou ainda a desempenhar a função de guarda-redes, tendo praticado também boxe em competições federadas.


    A sua ligação à música começou muito cedo, ainda criança, na localidade de Neta Gomes, em São Domingos, nos bailes improvisados com instrumentos feitos de lata, onde já assumia o papel de vocalista, cantando com uma vibração que o acompanharia para o resto da vida.


    Hoje, é funcionário da Câmara Municipal de São Domingos e encontra-se à beira da reforma. Entre risos, diz que aguarda o dia em que alguém na instituição lhe dirá: "Skato, di bo dja dá".


    Sem nunca ter saído da ilha desde que chegou de São Tomé e Príncipe, fixou-se definitivamente em São Domingos. A sua voz e os seus dotes musicais levaram-no a animar festas em todos os cantos de Santiago.


    O seu percurso confirma, afinal, uma ideia simples e poderosa: a cultura não se mede apenas pelos grandes palcos nem pelas visualizações no YouTube. Vive, sobretudo, na entrega silenciosa de artistas como Skato.

     

    DB