Na noite de terça-feira, 23 de dezembro, com o espírito do Natal já pairava no ar da cidade da Praia, o Auditório Nacional transformou-se num lugar de escuta interior. Princezito voltou a convocar o silêncio e a emoção para a segunda edição do evento "Spiritual", um concerto que se propõe a ser mais do que música: um encontro de almas.
Tão espiritual que, à semelhança da primeira edição, voltou a contar com a presença do Cardeal D. Arlindo Furtado, figura maior da Igreja Católica em Cabo Verde e presença rara fora da esfera religiosa. Princezito agradeceu-lhe publicamente, com respeito e uma pitada de humor, lembrando que, naquela sala, estava "um homem sábio, talvez o que mais segredos carrega". A plateia sorriu, e o tom estava dado.
No palco, Princezito confirmou a coerência de um percurso que tem vindo a construir com cuidado e qualidade. Já assim fora no evento "Pilon di Xou", em acontece em março, no mês dedicado às mulheres, ou no "Mano a Mano", partilhado com o irmão Mário Lúcio. Em "Spiritual", o critério manteve-se: convidados escolhidos não apenas pela voz, mas pelo lado humano, pela positividade, por essa "espiritualidade" que o músico diz reconhecer em artistas de grande alma.
Depois de abrir o concerto com o tema "Caoberdiano Barela", cantado em coro com o público, Kady foi a primeira convidada a subir ao palco. Interpretou "Emorio" e "Tamina", antes de estrear, em dueto com Princezito, uma canção inédita intitulada "Kady", da autoria do anfitrião.
Seguiram-se Sandra Horta e Arymar. Com Sandra, também natural do Tarrafal de Santiago, houve momentos de pura conexão musical, cumplicidade que se sente mais do que se explica. Já Arymar entrou em cena com a lembrança feita por Princezito à plateia: é dele a autoria de "Mindel D’Novas", tema que ganhou grande projeção na voz da Ceuzany. Foi precisamente com essa canção que o músico, natural do Paul, em Santo Antão, abriu a sua atuação.
Mas "Spiritual" não ficou apenas no plano simbólico. Princezito, em nome de outros músicos, homenageou o recentemente falecido Romeu di Lurdis, com a entrega de um quadro com a imagem do músico à sua mãe, Lurdis, que subiu ao palco acompanhada pela família.
O concerto teve também um lado solidário: a receita reverteu a favor da Colmeia, Associação de Pais e Amigos de Crianças e Jovens com Necessidades Especiais. No final, um leilão de um quadro do artista plástico Hélder Cardoso encerrou a noite. A licitação começou nos 50 mil escudos e terminou de forma fulminante, quando a primeira licitante quadruplicou o valor inicial, deixando no ar apenas aplausos, e a certeza de que, naquela noite, a generosidade também subiu ao palco.
Décio Barros










