A Festa de Santo, na ilha de Santiago, é a morabeza na sua forma mais pura, um sentimento que não se explica, vive-se. Neste domingo, deixámos a cidade da Praia rumo ao município de São Salvador do Mundo, Picos, onde cada pedaço de terra celebra o “Nhu Sior do Mundo”, ou simplesmente “Festa Grande”, assinalada anualmente no segundo domingo após a Páscoa.
Encravado no centro da ilha, longe do mar, São Salvador do Mundo é montanhoso, um território rural, moldado pela agricultura e pela criação de gado. Mas neste dia, tudo converge para um só ponto: a igreja matriz de Achada Igreja. É Dia de Festa Grande, é Dia de Missa Grande, e todos os caminhos vão dar ali.
Devotos chegam de todos os cantos do município, da ilha e da diáspora, sobretudo de Portugal e França. Vestem-se a rigor, com roupas novas, vistosas. O dia assim o exige, ou talvez a fé.
As Festas de Santo, como são conhecidas, são celebrações intensas onde o sagrado e o profano caminham lado a lado: a solenidade das missas e procissões mistura-se com a música, a dança e o reencontro de famílias espalhadas pelo mundo. O domingo de missa é o término e o ponto alto das festividades do santo padroeiro.
Chegámos quando a procissão já subia a rua que dá acesso à igreja. Tentávamos integrar-nos naquele mar de gente quando, na encosta da estrada, um outro quadro nos prendeu o olhar: quatro mulheres, de volta de grandes panelas ao lume, preparavam o almoço. Ao longe, víamos mãos experientes a enrolar massa de milho, lançando pequenas bolas para dentro da panela.
Desviámo-nos do percurso da procissão e descemos a encosta. Encontrámos a Vilma, a Elsa e mais duas senhoras, nas traseiras de uma residência, vestidas informalmente. Traje para a festa, só depois do almoço estiver pronto na mesa.
Apresentámo-nos, telemóvel em punho, explicando a intenção de captar aquele gesto ancestral, mãos a moldar a massa, em plano fechado. A resposta foi imediata: um sorriso aberto, liberdade total para filmar… e um convite gentil e insistentes para ficar para o almoço.
Ali, percebemos expectativas nunca supera e muito a realidade, pelo menos não quando se fala de morabeza.
Entre conversas, soubemos que Vilma vive ali, enquanto Elsa tinha chegado na véspera. "N’bem undi nhas gentis" [vim encontrar os meus]. Uma frase simples, mas que carrega o peso da identidade e da hospitalidade cabo-verdiana. Elsa veio da Praia, “ajudar a confecionar a refeição dá-me satisfação”, disse, com naturalidade.
Quatro panelas dominavam o cenário: duas grandes, com feijão-pedra e um guisado de carne de vaca, mandioca e massa de milho; outras duas médias, com xerém e arroz. A conversa fluía ao ritmo das mãos que não paravam. Particularmente, gosto e muito destes momentos, aqui surgem os detalhes fascinantes de conversas, o sorriso leve e sincero e a alma ainda mais leve. É o meu mundo a parte.
Este ritual à volta das panelas repetia-se por todo o município e, na verdade, por toda a ilha de Santiago em dias de Festa de Santo.
Seguimos depois para a igreja, para testemunhar a "fé dos homens", aquela devoção que não precisa de tradução. Lá dentro, cada cumprimento era também acompanhado por um convite para almoçar. Este ano, ficou a sensação de que havia mais panelas ao lume do que gente para as esvaziar.
Entre os rostos conhecidos, reencontrámos Ben do Rosário, o "fotógrafo do sorriso", vindo de Portugal. Aproveitou mais uma passagem pelos Atlantic Music Expo e Kriol Jazz Festival para também captar a essência desta festa. Estava visivelmente encantado. E seguimos juntos pelo resto da festa.
A meio da longa missa, fizemos uma pausa. Voltámos à casa da Vilma para que o Ben pudesse fotografar aquele cenário e mais uma vez, fomos recebidos com a mesma simpatia desarmante.
"Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe" a frase que encerra a Missa Grande é, afinal, o verdadeiro início de tudo. É ali que a devoção ganha corpo fora da presença das dezenas padres que compunham o altar improvisado, no exterior da igreja: na demonstração viva da fé, no ritual de tocar a figura do Santo, entre promessas sussurradas e agradecimentos sentidos.
E, como os tempos também caminham, o ritual foi ganhando novas camadas: há quem leve consigo não só a fé, mas também o telemóvel, para uma selfie, uma pose, um instante captado e guardado com carinho. Entre o sagrado e o quotidiano, a tradição vai-se reinventando, sem nunca perder a sua essência.
Terminada eucaristica, regressámos a casa da Vilma para o almoço. O convite, quase uma intimação, tinha de ser honrado. À mesa, feijão-pedra com toucinho, xerém, guisado de mandioca com massa de milho. Diz-se que, nestas festas, deve-se comer pouco, porque os convites multiplicam-se de casa em casa. Mas a comida estava tão boa que acabei por comer que me fartei. Sabores que são mais do que comida, são memória. Uma viagem no tempo, à infância, às festas que nos moldaram.
E seguiram-se as sobremesas: bolos de forma, gelado de maracujá, doce de papaia… uma mesa farta, como se a abundância fosse também uma forma de afeto.
Podíamos ter ficado ali horas. Mas a festa chamava-nos pelas ruas de Achada Igreja, uma cidade que se estende ao longo de uma única via, cravada na crista da montanha.
Depois de escrever todas estas linhas, apercebo-me de que ainda não tinha referido que o convite, o tal "bem undem pa festa zona", para viver o Nhu Sior do Mundo foi feito há cerca de três meses por um colega de trabalho, natural do município.
Os seus familiares residem longe do centro de Achada Igreja, na localidade de Achada Leitão de Baixo, no alto da montanha, ladeada por duas ribeiras que as cheias, durante a época das chuvas, desaguam na grande Ribeira dos Picos. Lá de cima avista-se as localidades de Matinho e Serelho, já no município de Santa Cruz.
Para chegar a Achada Leitão de Baixo, passa-se pela localidade cujo nome sempre me soou bem, não sei explicar porquê: Jalalo Ramos, eternizado num funaná pelo grande Orlando Pantera. Lembro-me de um trecho da canção que diz: "...nta bai lá, nta bai festa, nta bai Jalalo Ramos, na Picos...". São desses nomes que guardamos na memória muito antes de os conhecermos de perto.
Outro momento de pura morabeza aconteceu a meio do caminho. Parámos num pequeno minimercado para comprar uma bebida, gesto simples, de quem só queria refrescar a viagem. Mas, na caixa, enquanto fazíamos o pagamento, surgiu mais um convite, assim, sem cerimónia. A jovem que nos atendeu, com a naturalidade de quem convida um familiar, soltou: "nhos entra no quintal pa almoço".
Ficámos por instantes suspensos entre o espanto e o sorriso. E nós meio a brincar, meio rendido à evidência: "Então é assim? Entra-se para comprar e sai-se convidado para almoçar?". Naquele instante, percebemos que, por ali, comprar era apenas um pretexto. O essencial, como quase sempre nestas terras, era partilhar.
Em Achada Leitão de Baixo, novamente, a mesma morabeza, como se fôssemos da casa desde sempre, e a mesma sensação: casa com pouca gente, mesa farta… e a impressão de que falta sempre quem coma tudo o que foi preparado. Um contraste silencioso com a realidade dos nossos dias, em que a emigração vai deixando vazios, também na agricultura, também à volta das mesas.
De regresso à cidade da Praia, havia um detalhe que denunciava a minha passagem pela Festa de Nhu Sior do Mundo: o cheiro a fumo das panelonas, entranhado na roupa. Bastou cruzar-me com algumas pessoas para ouvir, quase de imediato: "foste aos Picos, certo?!".
No fim, fica isto: a Festa de Nhu Sior do Mundo não é apenas uma celebração religiosa. É um retrato vivo de quem somos, entre a fé, a partilha e a saudade.
DB



