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    Ilha de Santiago. São João Baptista: mais uma “Festa Fora” que nunca é igual à anterior

    24 de junho de 2026

    A localidade de São João Baptista, na freguesia com o mesmo nome, no interior do município da Ribeira Grande de Santiago, celebrou nesta quarta-feira, 24 de junho, mais um Dia de São João Baptista, o seu santo padroeiro. Na cidade da Praia e agora assumido, com orgulho, por toda ilha de Santiago, estas festividades são popularmente conhecidas como “Festas Fora”, expressão utilizada para designar as celebrações religiosas e populares que acontecem nas localidades do interior ou fora da cidade da Praia.

     

    Diferente das celebrações de São João no Porto Novo ou na Brava, onde o tambor dita o compasso da festa, aqui a tradição tem outro ritmo. É uma festa marcada pelos encontros e reencontros, pela fé renovada e por uma morabeza que parece resistir ao passar dos anos. E por isso que nenhuma “Festa Fora” seja igual à anterior.

     

    Cheguei ainda antes do almoço, a missa já tinha iniciado. Enquanto procurava abrigo do sol debaixo da sombra fresca de uma casa, uma senhora saiu para falar comigo. Primeiro veio o convite: “Venha almoçar connosco depois da missa”. Só depois perguntou o meu nome. A ordem dos acontecimentos não foi por acaso. Numa “Festa Fora”, primeiro acolhe-se a pessoa; a identidade vem depois. É um gesto simples, mas que diz muito sobre a essência destas celebrações.

     

    São João Baptista, como tantas localidades do interior de Santiago, também sente o peso da emigração, a perda da população a favor da diáspora. Durante a missa, perante centenas de fiéis, o padre lançou um desafio curioso: pediu que levantassem a mão aqueles que residem efetivamente na comunidade. Foram menos de uma dezena. O exercício arrancou alguns sorrisos, mas também revelou uma realidade evidente.

     

    Ainda assim, a localidade estava cheia. A maioria dos presentes vinha de outros pontos da ilha e muitos regressaram da diáspora para cumprir promessas, visitar familiares ou simplesmente matar saudades da terra.

     

    Entre os visitantes havia histórias que mereciam ser contadas.

     

    Uma delas era a do senhor João Baptista, residente em Leitãozinho, nos Picos. O nome coincidiu com o dia e o aniversário também. Celebrava os seus 70 anos de vida. Veio pela primeira vez a esta festa, a convite de um padre. Apesar de algumas limitações de saúde, não perdeu o entusiasmo. Entre conversas e sorrisos, deixou uma promessa: “Se Deus quiser, volto em 2036 para festejar em grande os 80 anos. Gosto de celebrar números redondos”.

     

    Outra história era a de uma emigrante cabo-verdiana residente em França. Também participava pela primeira vez nestas festividades. Contou que a sua presença ali era fruto de uma profunda devoção. Recentemente sofreu um AVC que a deixou sem conseguir andar ou falar durante três meses. Hoje voltou a caminhar, a cantar, a dançar e a celebrar a vida. Não tem familiares na região, mas a fé em São João Baptista trouxe-a até esta localidade.

     

    Também para mim esta foi uma estreia. Durante anos ouvi referências a esta festa nas músicas e nas conversas sobre as grandes "Festa Fora" de Santiago. Agora pude conhecê-la de perto. E saí com a mesma sensação que tantas vezes acompanha as “Festas Fora”: parece haver sempre mais comida do que pessoas.

     

    A missa foi extensa e prolongou-se até depois das 14 horas, com a frase mais aguardado "ide em paz e o Senhor vos acompanhe". Mas ninguém parecia ter pressa. À saída, a animação foi prolongado, e ficou por conta da Banda Municipal de São Domingos, presença habitual nas festas populares da ilha. O repertório percorreu clássicos que todos conheciam de cor e, naturalmente, nesta altura do Mundial de Futebol, não faltou “Tubarões Azuis”, dos Ferro Gaita, uma música que há muito ultrapassou o estatuto de canção para se tornar num verdadeiro hino popular da Seleção Nacional.

     

    E assim passou mais uma “Festa Fora”. Diferente de todas as anteriores e, certamente, diferente de todas as que ainda estão por vir. Porque nestas festas o mais importante não é apenas a celebração do santo. É a celebração das pessoas que regressam, das histórias que se cruzam e da morabeza que continua a encontrar formas de sobreviver.

     

     

    Cronica DB